Frequentemente, pacientes são atendidos nos consultórios otorrinolaringológicos com queixas de “rouquidão”, “pigarro”, tosse, “bolo na garganta”, e diagnosticados com Doença do refluxo gastroesofágico e, mais precisamente, Refluxo Faringo-Laríngeo. Da mesma forma, estes pacientes sempre apresentam inúmeras dúvidas sobre o problema e perguntas como “Não tenho queimação, como posso ter refluxo?” ou “Minha endoscopia está normal, como pode ser refluxo?” são constantes. Neste contexto, as informações que se seguem têm por objetivo esclarecer de antemão algumas questões e orientar sobre a doença de forma técnica mas com linguagem mais clara.

Define-se Refluxo Gastro-Esofágico (RGE) como a passagem de conteúdo do estômago para o esôfago, sem que seja por motivo de vômito. É um fenômeno normal quando é assintomático e esporádico, particularmente após as refeições.

Quando este refluxo gera sintomas ou problemas, definimos como Doença de Refluxo Gastro-Esofágico (DRGE), doença que acontece em 10 a 20% na população adulta do mundo ocidental, sendo a doença crônica mais comum do trato digestivo alto.

Os sintomas típicos da doença são azia/pirose (“queimação”) e regurgitação ácida. Porém, grande parte das pessoas que possuem DRGE não apresentam estes sintomas típicos, podendo apresentar dor torácica (“dor no peito”), disfonia/rouquidão, tosse crônica, globus faríngeo (“bolo na garganta”), “pigarro”, crises de “falta de ar” (similares à asma), cáries, halitose etc. Quando o refluxo atinge a garganta (faringe e a laringe) causando alguns dos sintomas atípicos acima, chamamos de Refluxo Faringo-Laríngeo (RFL).

Merecendo mais atenção, sintomas como disfagia (dificuldade para deglutir), perda de peso significativa, anemia e hemorragia digestiva são considerados sintomas de alarme, indicando que algo possa estar fora do esperado.

O diagnóstico da DRGE é, na sua forma típica, clínico, ou seja, baseado nos sinais e sintomas apresentados e corroborado com a utilização de um teste terapêutico, com mudanças de hábitos e medicações, por vezes sem necessidade de exames. Porém, quando este teste terapêutico não nos ajuda inicialmente ou quando temos sintomas atípicos/de alarme ou quando temos pacientes com mais de 45 anos, a Endoscopia Digestiva Alta (EDA) pode nos trazer sinais indiretos de refluxo e nos ajudar com a definição do diagnóstico ou de complicações. A Videofaringolaringoscopia está sempre indicada nos casos de sintomas faríngeos ou laríngeos (como tosse crônica, “pigarro”, “bolo na garganta” e alterações da voz), frequentemente evidenciando sinais de inflamação local (sinais de laringite posterior). Em casos refratários ao tratamento inicial e que mantemos a suspeita  mesmo com a Endoscopia Digestiva Alta normal (já que este exame está NORMAL em 30 a 60% das vezes), a Impedancio pH-metria esofágica tem papel importante, pois define de forma objetiva a presença do refluxo, assim como define se é de fato um refluxo ácido ou mesmo alcalino (tipo de difícil tratamento).

O tratamento da DRGE/RFL se baseia em recomendações de mudanças de hábitos e estilo de vida, perda de peso, uso de medicações e, em alguns casos, cirurgia.

E quais seriam as principais orientações a serem dadas ao paciente com refluxo?

De uma forma geral, existem 7 medidas de “ouro”, importantes no tratamento da DRGE:

  1. Deitar-se apenas 3 horas após a última refeição (mesmo que seja líquida).
  2. Elevar a cabeceira da cama em 15 a 20 cm (blocos de madeira sob os pés da cabeceira).
  3. Procurar dentar-se de lado para a esquerda (o que chamamos de decúbito lateral esquerdo) e com roupas bem confortáveis (não podem ser “apertadas”).
  4. Perder peso (para o caso dos pacientes com sobrepeso ou obesos).
  5. Evitar: álcool, cigarro, refeições volumosas e a ingestão de comidas ácidas (frutas cítricas como laranja, limão, abacaxi, extrato de tomate, comidas condimentadas e picantes) que pioram a queimação quando são regurgitadas ou comidas que relaxam o esfíncter esofagiano inferior, aumentando o refluxo (como café, comidas gordurosas, frituras, leite integral, bebidas gasosas, menta e hortelã).
  6. Investigar e tratar a Síndrome da Apnéia Obstrutiva do Sono, quando também apresentar roncos noturnos.
  7. Em caso de sintomas de alarme como: Dificuldade para “engolir”, emagrecimento, anemia ou hemorragia, comunicar seu médico precocemente.

 

As medicações que podem ser prescritas vão desde anti-secretores (como Ranitidina) em casos mais leves, até os inibidores da bomba de prótons (como o Omeprazol e seus pares) em dose plena ou dobrada. Procinéticos (como Bromoprida ou Domperidona) também podem ter sua indicação. O tratamento com antibióticos contra o H. pylori (assim como sua pesquisa) não tem benefícios comprovados no tratamento da DRGE, não sendo empregado de forma geral.

Cirurgia é uma opção que deve ser levada em conta em casos selecionados, como a Fundoplicatura Gástrica Parcial (Toupet) ou Total (Nissen).

A Doença do Refluxo Gastroesofágico, por conta de sua alta prevalêcia e por conta das repercussões potenciais que tem na vida dos pacientes que dela sofrem, deve ser doença compreendida pelo médico generalista. Quando sintomas atípicos ou de alarme se apresentam ou mesmo quando o paciente é refratário ao teste terapêutico inicial ou não possui ainda um diagnóstico definido, a atuação de um especialista se faz importante.

De uma forma geral, pelo que se parece razoável, pacientes com sintomas típicos refratários ou alterações esofágicas à Endoscopia Digestiva Alta devem ser referenciados ao Gastroenterologista ou Cirurgião do Aparelho Digestivo. Os pacientes com sintomas atípicos faringo-laríngeos devem ser avaliados pelo otorrinolaringologista; mesmo porque a DRGE pode contribuir com problemas como sinusites, faringites e otites médias de repetição (ou com efusão), associações que vêm sendo propostas em alguns estudos.

Uma avaliação adequada, com atenção aos sintomas e investigação de possíveis complicações, associada à condução adequada do tratamento, são o cerne do sucesso no diagnóstico adequado e tratamento eficaz desta doença. Quando necessário, uma interconsulta com o especialista é fundamental para um melhor desfecho clínico.

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